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TESTE DE VIAGEM
É BOM PORQUE É GRANDE Com 160 mil toneladas, 63 metros de altura - equivalente a um prédio de 20 andares - e capacidade para 4 mil passageiros, o Freedom of the Seas é agora o maior navio de cruzeiro do mundo. Nossa repórter não se aventurou na piscina de ondas para surfe, mas relaxou no spa, ouviu covers dos Beatles, foi a festas no estilo Miami Beach e concluiu, entre um gim-tônica e outro, que tamanho é, sim, documento
Exclusivo online: Infográfico animado com mais fotos e detalhes do navio Josh tem 8 anos, mede pouco mais de 1 metro e parece ser hiperativo. Está na minha frente numa fila que já dura meia hora. Não dá sinais de que irá desistir. Ao contrário, transpira ansiedade e se esquiva dos insistentes abraços da mãe. Pergunto se está feliz, e a resposta vem direta: "Muito". E, então, como se já fôssemos velhos conhecidos, ele começa a me contar como aquele dia está sendo sensacional. Voou de avião, entrou num navio pela primeira vez e, em poucos minutos, enfrentará "o" desafio. Estamos, eu e ele, esperando a vez para surfar na tão falada piscina de ondas do Freedom of the Seas, o maior navio do mundo.
Sim, Josh está empolgado - e não é para menos. Quem imaginaria uma piscina de ondas num navio? A Flowrider, nome mais que publicitário dado à atração, é real e muito divertida, com suas ondas formadas à custa de muita força das águas (34 mil galões por minuto, para ser exata). Reúne multidões nas filas e nas arquibancadas, mas é apenas uma das inovações do Freedom. Com 160 mil toneladas e capacidade para mais de 4 mil passageiros, o novo navio da Royal Caribbean é o cruzeiro do ano, tão ou mais aguardado que o Queen Mary 2 em 2004 - o "Freedom" de dois anos atrás.
Claro, parte do barulho se deve ao tamanho. Mas apenas 5% mais pesado e podendo comportar mil passageiros a mais que o QM2, o Freedom não é tão maior assim. "Não há como fazer comparações. Navegamos só pelo Caribe e queremos ter atividades para todos", disse o presidente da operadora Royal Caribbean, Adam Goldstein, numa das primeiras viagens do navio, em junho. Em essência, o Freedom é uma versão ampliada da popular classe Voyager da empresa. Cruzeiristas experientes reconhecerão os dourados onipresentes, a colorida Promenade (rua com restaurantes, bares e lojas), a pista de gelo, a parede de escalada e a lanchonete Jonnhy Rockets, de temática fifties e deliciosos shakes. Mas o Freedom está longe de ser um repeteco.
Certamente são as inovações, como a tal piscina de ondas, o parque aquático infantil e as jacuzzis debruçadas sobre o mar, que irão atrair marinheiros de primeira viagem, como eu e Josh. Ao fim do cruzeiro, dois dias depois de meu encontro com ele na fila, eu perceberia que o mantra "algo para todo mundo", bombardeado pelas peças publicitárias, era, de fato, verdade. Mais importante, pude desembarcar com a certeza de que o Freedom é o melhor navio já construído para famílias. Como a de Josh, vinda do Kansas, interior dos Estados Unidos, que sonhava conhecer as águas do Caribe.
Voltemos à fila. Eu tentava entender aquela cidade flutuante (dez restaurantes, 16 bares, 1 815 cabines, teatro de três andares...) quando a vez de Josh surfar chegou. Ele recebeu um indesejado beijinho da mãe, ouviu as instruções dadas pelo monitor louro e se jogou na piscina. Não durou muito tempo na prancha: as águas logo o empurraram para longe. Reapareceu com um sorriso no rosto e uma clara vontade de tentar de novo - a fila, naquela hora, tinha mais de 100 pessoas. Eu, que não tinha apoio materno ou coragem, saí discretamente em direção à arquibancada. Um americano grandalhão, em seguida, fez a festa dos espectadores ao surfar com a barriga, depois de deixar escapulir sua prancha.
Perto da Flowrider, que fica no 13º deque (ao todo, são 15), encontrei o minigolfe, a quadra de basquete e a parede de escalada. Algumas escadas depois, vi as piscinas, com centenas de espreguiçadeiras, as jacuzzis projetadas para fora do navio e um coloridíssimo parque aquático. De longe, vi Josh - ora jogando água em amiguinhos, ora praticando seu esporte favorito: fugir da mãe. Não fugia à toa: ele só tinha mais o que fazer.
Como visitar o enorme salão de jogos ou experimentar uma das pizzas grátis da Sorrento's. Se fosse uns 13 anos mais velho poderia também me acompanhar à noite à boate The Crypt, com boa música disco e bebidas. Ou ainda a uma das baladas que acontecem nas piscinas, inspiradas nos clubes de Miami, com direito a clones de Deborah Secco em América e drinques de cores psicodélicas. Ou a um dos bons shows do Teatro Arcadia, como o Rain, com covers decentes dos Beatles.
Esse monte de atividades, com outro monte de gente em volta, pode parecer opressor. Mas mal percebi que estava no meio de 3 mil pessoas. Consegui fazer tudo sem estresse. Sensação similar teve a carioca Andréa Valente, que embarcava em seu sexto cruzeiro com o marido: "Há tantos espaços e coisas pra fazer que nenhuma área congestiona. Até encontrei uma espreguiçadeira perto das piscinas", disse. Ela gostou mesmo das noites de gala, nas quais pôde usar vestidos reluzentes, tomar champanhe e se fartar com a comida do enorme restaurante, de três andares e lustre imponente. Andréa também passou longos minutos posando nas escadas coloridas da Promenade, o hit dos momentos Kodak (ainda se usa essa expressão?).
Eu, que não gosto de ser fotografada, fiquei bem longe de lá. Depois de um dia tentando explorar os 15 deques do navio, concluí que era hora de ir ao spa. Escolhi a massagem profunda (deep tissue,128 dólares). Uma pequena filipina chamada Kathleen ficou horrorizada com o tamanho dos nós nas minhas costas. Depois de 50 relaxantes minutos, ela ainda me convenceu a torrar outros 100 dólares em produtos Elemis, renomada marca inglesa de spa. Tudo bem, aquele foi meu único gasto, já que os produtos das lojas a bordo eram fracos.
A melhor compra foi um óleo de lavanda - daqueles para pingar no travesseiro - que me fez dormir como um bebê na confortável cama da minha espaçosa cabine. No dia seguinte, deitada numa das chaise-longues do solário, olhava para o mar e percebia quão reconfortante era contar com piscinas, teatro, spa, boates, tudo em alto-mar. E, mais ainda, com o silêncio daquele momento. Vi então Josh passeando de mãos dadas com a mãe e lembrei de sua alegria na piscina de ondas. E também a de Andréa, em seus dias regados a champanhe e lamê. E notei a minha própria felicidade, ao ter aquela primeira oportunidade de relaxar em dias. Sim, é possível fazer nada no maior navio do mundo. 3
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